Por que líderes europeus têm dificuldade em adotar uma posição unificada sobre o Irã

O chanceler alemão Friedrich Merz, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer, o presidente francês Emmanuel Macron e o primeiro-ministro polonês Donald Tusk.

Crédito, Getty Images

    • Author, Katya Adler
    • Role, Editora de Europa
  • Tempo de leitura: 9 min

A Europa sabia que isso poderia acontecer.

Por semanas, líderes e autoridades europeias acompanharam o reforço militar dos Estados Unidos no Oriente Médio e ouviram as ameaças do governo de Donald Trump a Teerã: abandonar qualquer ambição nuclear — ou enfrentar as consequências.

Mas, desde o início dos ataques conduzidos pelos EUA e Israel contra o Irã, três dias atrás, o continente parece descoordenado — quando não fragmentado e claramente sem influência — diante da rápida escalada dos acontecimentos.

Cada país europeu está, compreensivelmente, preocupado com seus cidadãos na região e com a possibilidade de ter que evacuar dezenas de milhares de pessoas.

Os governos europeus também se preocupam com o impacto que a crise no Oriente Médio pode ter sobre os consumidores em seus países, principalmente nos preços da energia e alimentos.

Os preços do gás na Europa dispararam a níveis nunca vistos desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

Fumaça entre prédios em Teerã

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Legenda da foto, Os Estados Unidos e Israel continuaram a atacar alvos em Teerã

Politicamente, a Europa claramente enfrenta dificuldades para adotar uma posição unificada diante dos acontecimentos no Oriente Médio.

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As três principais potências do continente — França, Alemanha e Reino Unido — conseguiram divulgar uma declaração conjunta no fim de semana, alertando o Irã de que eles estavam prontos para tomar "medidas defensivas" para destruir sua capacidade de lançar mísseis e drones, caso Teerã não interrompesse seus "ataques indiscriminados".

Desde então, o Reino Unido atendeu a um pedido dos EUA para usar duas bases militares britânicas para ataques "defensivos" contra instalações de mísseis iranianas — embora o presidente Donald Trump tenha criticado Londres por não ser mais ativa.

A França reforçou sua presença no Oriente Médio após um ataque iraniano atingir uma base francesa nos Emirados Árabes Unidos, enquanto a Alemanha afirmou que seus soldados continuam prontos para "medidas defensivas" caso sejam atacados, mas nada além disso está sendo planejado.

Os três países não chegaram a questionar a legalidade dos ataques conjuntos EUA-Israel sob o direito internacional.

Também chamou atenção a ausência de questionamentos a Washington em uma série de publicações feitas pela chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas.

Uma das principais preocupações de todos esses líderes europeus é não se indispor com Donald Trump.

Eles esperam desesperadamente que os acontecimentos no Oriente Médio não se tornem mais uma distração para o presidente americano, impedindo-o — mais uma vez — de se empenhar na busca de uma solução duradoura para outro conflito, este no próprio continente europeu: a Ucrânia.

Trump fazendo um discurso

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Legenda da foto, O presidente Donald Trump criticou o Reino Unido por não fazer mais no conflito com o Irã

Mas será que a postura evasiva de algumas das principais potências europeias em relação à legalidade das recentes ações dos EUA no Irã ou na Venezuela, por exemplo, não complica ainda mais a situação?

Elas costumam dizendo que esta é uma Europa de valores comuns, que respeita uma ordem internacional baseada em regras. Mas quais são exatamente essas regras?

O primeiro-ministro da Espanha afirma que sua posição é clara. Pedro Sánchez foi às redes sociais para dizer: "Pode-se ser contra um regime odioso, como é o caso do regime iraniano… e, ao mesmo tempo, ser contra uma intervenção militar injustificada e perigosa, fora do direito internacional".

Várias aeronaves americanas deixaram a Espanha na segunda-feira, após Madri afirmar que suas bases não poderiam ser usadas para ataques contra o Irã.

Essa recusa fez com que, nesta terça-feira, o presidente Trump anunciasse que iria "cortar todo o comércio" com a Espanha.

Enquanto isso, a União Europeia parece totalmente descoordenada.

Uma declaração conjunta dos ministros das Relações Exteriores dos Estados-membros evitou defender uma mudança de regime no Irã, enquanto a presidente da Comissão Europeia, principal órgão executivo do bloco, fez exatamente isso no domingo.

"Uma transição crível no Irã é urgentemente necessária", afirmou Ursula von der Leyen em uma publicação nas redes sociais.

Isso esteve longe de ser uma demonstração de unidade.

Ainda assim, a ambição declarada das nações europeias, dentro e fora da União Europeia, incluindo o Reino Unido — neste novo e turbulento cenário de política entre grandes potências — é trabalhar de forma mais coordenada em áreas de interesse comum, primeiro e antes de tudo no campo da segurança e da defesa.

Mas a questão é: os países europeus são realmente capazes de fazer isso?

Mudança nuclear

O ano de 2026 tem sido marcado por turbulências: Venezuela, Groenlândia e Irã.

A Europa enfrenta uma Rússia expansionista à sua porta, uma China economicamente agressiva e um aliado cada vez mais imprevisível em Washington.

Na segunda-feira, o presidente Emmanuel Macron anunciou que a França mudará sua doutrina nuclear e aumentará seu número de ogivas nucleares porque, segundo ele, "nossos concorrentes evoluíram, assim como nossos parceiros".

Macron falando durante evento

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, O presidente Emmanuel Macron anunciou que a França mudará sua doutrina nuclear

A Rússia possui o maior arsenal nuclear do mundo, a China está expandindo rapidamente suas capacidades e, embora os Estados Unidos — a segunda maior potência nuclear global, atrás apenas da Rússia — tenham fornecido por décadas um "guarda-chuva nuclear" à Europa, as mudanças de prioridades em Washington deixaram os europeus apreensivos.

Suécia, Alemanha e Polônia procuraram diretamente a França para pedir uma proteção europeia mais ampla, além da já oferecida aos aliados da Otan pelo Reino Unido, a única outra potência nuclear do continente.

O presidente Emmanuel Macron encontra-se agora na posição de poder dizer "eu avisei", após anos defendendo que a Europa se tornasse mais estrategicamente autônoma na área de defesa — incluindo um forte investimento no setor espacial, com satélites de uso duplo, por exemplo, por meio da Agência Espacial Europeia, da qual o Reino Unido também é membro.

Ainda assim, a coordenação entre países continua sendo um enorme desafio.

A aquisição de armamentos é um exemplo evidente. Enquanto os Estados Unidos utilizam cerca de 30 sistemas de armas diferentes, a Europa dispõe de 178, muitas vezes duplicados.

"Ineficiente, caro e lento", foi a conclusão contundente da presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, na semana passada.

Primeiro-ministro Pedro Sanchez gesticula enquanto fala no parlamento

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que é possível opor-se ao "regime odioso" do Irã e, ao mesmo tempo, rejeitar o que chamou de "intervenção militar injustificada e perigosa"

A Otan está tentando mitigar esse problema buscando gerenciar as decisões de aquisição entre seus 32 membros, mas o entrave é que as diretrizes da aliança de defesa são apenas voluntárias.

Todos os integrantes da Otan (com exceção da Espanha) cederam à pressão de Donald Trump no ano passado e concordaram em aumentar os gastos com defesa.

Mas tão importante quanto elevar o orçamento é garantir que esses recursos sejam utilizados de forma eficaz.

O instinto da maioria dos governos é proteger suas próprias indústrias de defesa, mesmo que isso ocorra em detrimento dos vizinhos. A França, com frequência, é alvo desse tipo de acusação.

Prioridades moldadas pela história

À medida que os acontecimentos no Oriente Médio se desenrolam, fica evidente que cada país europeu tem suas próprias prioridades, forças e fragilidades, moldadas por sua história e pelas preocupações de seus eleitores.

O fato da Alemanha ter sentido a necessidade, nesta semana, de deixar muito claro que não pretende ampliar sua presença militar no Oriente Médio — muito menos participar de qualquer ação ofensiva — está ligado à forte aversão da sociedade alemã a conflitos armados, em grande parte devido ao passado do país.

Lembre-se de como a Alemanha foi inicialmente ridicularizada e criticada internacionalmente por demorar a enviar tanques à Ucrânia após o início da invasão em larga escala pela Rússia, há quatro anos.

O então chanceler alemão, Olaf Scholz, não ficou incomodado ao receber da imprensa o apelido de "Friedenskanzler" (chanceler da paz).

Inicialmente, uma parcela significativa da sociedade alemã se mostrou profundamente desconfortável com a ideia de que armamentos alemães pudessem voltar a ser usados contra russos, como ocorreu nas duas guerras mundiais do século passado.

Ainda atento a essas sensibilidades nacionais, o novo governo alemão de Friedrich Merz segue agora uma direção bastante diferente. O país tornou-se o maior doador individual de ajuda militar à Ucrânia.

O chanceler alemão Friedrich Merz

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, A Alemanha é agora o maior doador individual de ajuda militar à Ucrânia

Assim como o restante da Europa, a Alemanha contou por décadas com os Estados Unidos para garantir sua segurança.

Mas, com o governo de Donald Trump insistindo que a Europa assuma a maior parte da responsabilidade por sua própria defesa, Berlim planeja gastar, até 2029, mais em seu orçamento militar do que França e Reino Unido juntos, segundo a Otan.

O país também quer construir o maior exército convencional da Europa — e, 80 anos após a Segunda Guerra Mundial, com a Alemanha firmemente integrada à Otan e à União Europeia, outras potências europeias têm recebido a iniciativa militar alemã com apoio, e não com desconfiança.

Já a primeira-ministra da Itália tenta encontrar um equilíbrio entre a opinião dos eleitores italianos e o que ela considera ser do interesse de seu país e de sua própria posição no cenário internacional.

Até o momento, Giorgia Meloni tem mantido um perfil discreto em relação aos ataques conduzidos pelos EUA e Israel contra o Irã. Ela é uma das poucas líderes na Europa a manter uma relação verdadeiramente próxima com Donald Trump.

Como a terceira maior economia da Europa continental, era de se esperar que a Itália desempenhasse um papel de destaque na segurança do continente.

No entanto, até recentemente, o país figurava entre os que menos investiam em defesa na Europa. Para entender o porquê, é preciso olhar para a história italiana.

A Itália só foi unificada em 1861. Antes disso, era considerada um "campo de batalha da Europa", com potências estrangeiras explorando seus territórios. Os italianos aprenderam a confiar apenas em círculos muito restritos, em vez de depositar confiança no "Estado" para protegê-los.

A Itália também se destacou na Europa Ocidental quando a Rússia lançou sua invasão em grande escala da Ucrânia. Foi o único país onde, desde o início, a maioria da população se opôs ao envio de armas para ajudar Kiev.

Giorgia Meloni

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Legenda da foto, Giorgia Meloni é uma das poucas líderes na Europa a ter uma relação verdadeiramente próxima com o presidente Trump

Os italianos afirmavam simpatizar com os ucranianos, mas muitos questionavam o envolvimento da Itália no conflito.

Havia desconfiança de que o governo fosse capaz de protegê-los de efeitos colaterais, como a alta dos preços da energia ou possíveis retaliações da Rússia.

Quatro anos depois, apenas 15% dos italianos dizem acreditar que a União Europeia e os Estados Unidos deveriam continuar armando a Ucrânia até que as forças russas sejam expulsas, segundo o Instituto de Estudos de Política Internacional.

É por isso que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, firme defensora da Ucrânia, encontra-se em uma posição delicada.

Seus compromissos assumidos perante aliados internacionais na área de defesa estão desalinhados com a opinião da maioria dos eleitores italianos. A maior parte da população também se opõe à promessa feita por Meloni a seu aliado na Casa Branca de aumentar significativamente os gastos com defesa.

Coalizões pontuais

Ter consciência das tensões internas dos aliados e, portanto, saber até que ponto se pode ou não contar plenamente com cada um, é fundamental à medida que a Europa entra em uma era autodeclarada de cooperação mais estreita.

As dificuldades de agir "como um só", como se vê novamente diante da crise no Oriente Médio, têm levado à formação de coalizões menores e ad hoc, criadas por conveniência mútua em torno de temas específicos: projetos conjuntos de aquisição de defesa, como o recente pacto de defesa entre o Reino Unido e a Noruega para monitorar submarinos russos no Atlântico Norte; ou a chamada Coalizão dos Dispostos para a Ucrânia, liderada pelo Reino Unido e pela França, por exemplo.

Cada vez mais, essas alianças "europeias" ou ocidentais incluem países com ideias semelhantes de fora do continente, como o Canadá, além da Coreia do Sul e o Japão, que também costumam participar de exercícios militares da Otan.

Sentindo-se pressionada pelo novo clima global onde a força prevalece, ou pelo menos a força assume o protagonismo, a família de nações para a cooperação europeia está se expandindo. Mas também aumenta o desafio de compreender o que motiva cada membro dessa família e se eles, de fato, conseguem trabalhar juntos de forma eficaz.