A tecnologia pode fazer cérebro funcionar melhor?
- Author, Programa "CrowdScience"
- Role, Serviço Mundial da BBC
- Tempo de leitura: 5 min
Você tem uma longa lista de compras que precisa recordar? Ou os nomes dos convidados para uma reunião importante?
Existem truques de memória que usamos para treinar o cérebro, para que ele funcione melhor. É o chamado método "software", para melhorar nossa capacidade mental.
Mas será que poderíamos também usar o hardware, ou seja, dispositivos que fornecem impulsos elétricos ao cérebro?
Até o momento, esta tecnologia foi desenvolvida para ajudar a restaurar as funções cerebrais em certas condições neurológicas.
Um exemplo é a estimulação cerebral profunda (ECP), uma técnica complexa, utilizada por muitos anos para tratar de pessoas com transtornos de movimento, como a Doença de Parkinson.
Marca-passo para o cérebro
A professora Francesca Morgante, da Universidade City St George de Londres, observou o impacto da ECP em seus pacientes.
"Ela é considerada para pessoas cuja medicação não consegue controlar os sintomas", declarou a professora ao programa de rádio CrowdScience, do Serviço Mundial da BBC.

Crédito, Getty Images
O Parkinson causa a morte das células produtoras do mensageiro químico dopamina.
A dopamina é necessária para sinalização nas partes do cérebro que controlam os movimentos corporais. Sem dopamina em quantidade suficiente, as pessoas que sofrem de Parkinson podem ter sintomas como tremores, rigidez e lentidão de movimentos.
A doença piora com o tempo e, até o momento, não tem cura.
A ECP consiste em implantar cirurgicamente um gerador de pulsos embaixo da pele, geralmente pouco abaixo da clavícula. Ele é conectado a cabos ou eletrodos que são inseridos nas regiões do cérebro afetadas, para estimulá-las com uma pequena corrente elétrica.
O dispositivo age como um marca-passo do cérebro, segundo Morgante, ajudando a restabelecer a sinalização cerebral normal.
Não há uma solução única para todos
A estimulação cerebral profunda pode ajudar a aliviar alguns dos sintomas de Parkinson, mas nem sempre é eficaz.
As formas com que a vasta rede de neurônios envia sinais elétricos entre si são complexas e, até o momento, não são totalmente compreendidas.
"Existem muito mais sintomas do que apenas tremores e problemas de mobilidade", explica Lucia Ricciard, também da Universidade City St George de Londres.
"Eles incluem sintomas como depressão, ansiedade, falta de motivação, problemas de memória e dificuldades para dormir."
Ela destaca que os estudos indicam que a estimulação cerebral profunda também pode ajudar a aliviar alguns destes sintomas, como a depressão e a ansiedade, mas é preciso realizar mais pesquisas a respeito.

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Existem também considerações individuais. Cada cérebro é altamente complexo e único e, por isso, não existe uma solução única que sirva para todos.
Os cabos implantados e empregados na ECP consistem de diversos segmentos independentes, conectados a diferentes neurônios. Os especialistas precisam determinar quais segmentos devem ser estimulados para conseguir maior impacto sobre os sintomas do paciente.
"Para tomar a decisão de qual segmento ativar e com qual parâmetro em termos de frequência, amplitude e pulso, existem muitos aspectos que devem ser considerados", afirma Ricciard.
Este processo de calibragem personalizada, tradicionalmente realizado por meio de tentativa e erro, vem melhorando constantemente, ainda mais agora que a inteligência artificial pode sugerir quais combinações são as melhores para cada cérebro.
Reforço para a memória?
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Ainda não está muito claro se a estimulação cerebral serve para melhorar outras funções, como a memória. Mas este ponto, atualmente, é objeto de investigação.
A memória humana está concentrada em uma região do cérebro chamada hipocampo.
Ela recebe informações de outras partes do cérebro, como o odor, o som e a imagem de uma experiência, e a converte em um código que é armazenado a curto ou longo prazo, explica o especialista em memória Robert Hampson, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos.
Há vários anos, sua equipe realizou experimentos com pequenos roedores, que receberam uma tarefa que exigia o uso da memória, e observou o surgimento de padrões elétricos específicos antes que o animal decidisse o que fazer.
"Se o rato de laboratório girar para a esquerda, obtenho um padrão que chamo de 'esquerda'. Se ele girar para a direita, obtenho um padrão que chamo de 'direita'", explica Hampson.
"Descobrimos que existem padrões associados ao funcionamento correto da memória e suas possíveis falhas."

Crédito, Fotografixx via Getty Images
Hampson começou a se perguntar se seria possível influenciar esses padrões e "reparar a memória quando ela falhar".
Sua equipe foi pioneira nos primeiros testes em seres humanos de um dispositivo denominado prótese neural hipocampal.
De forma similar à ECP, ele exige a implantação cirúrgica de diversos eletrodos, estes dirigidos ao hipocampo.
A tecnologia ainda não está totalmente desenvolvida. Por isso, no lugar da implantação de um marca-passo, os eletrodos são atualmente conectados a um grande computador externo, que pode enviar e receber sinais do cérebro.
"Tentamos restaurar a função quando ela fica debilitada ou se perde", detalhou Hampson.
Em testes com pessoas com epilepsia, os resultados são promissores.
"Observamos uma melhora de 25% a 35% da capacidade de reter informações por cerca de uma a 24 horas. Isso foi observado em pacientes que apresentavam maiores problemas de memória no início do teste."

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Possibilidades para o futuro
Esta tecnologia, algum dia, poderá ajudar pessoas que sofrem de problemas de memória como Alzheimer, segundo Robert Hampson.
Mas será que ela poderia melhorar o cérebro de qualquer pessoa, não só das que sofrem de doenças degenerativas?
Hampson acredita que ainda temos muito o que aprender sobre os motivos que levam a memória de algumas pessoas a funcionar melhor do que outras.
"Não temos necessariamente informações suficientes para dizer 'podemos melhorar o cérebro além do normal'", segundo ele.
E é claro que existem obstáculos éticos a considerar, além dos riscos da própria cirurgia cerebral.
"A memória é a essência que nos define e a única coisa que não queremos é alterá-la", conclui Hampson.
Ouça neste link o episódio do programa de rádio Crowdscience, do Serviço Mundial da BBC, que deu origem a esta reportagem.




























